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Micky e Julio

Como disse anteriormente em e-mail anterior a Micky, gostaria de já ter comentado sobre este tema, mas a resposta oficial será dada através da assessoria de comunicação (ASCON) do Ministro. Mas vindo uma demanda nominal tenho o maior prazer e até certo alívio em dizer o que se passa. Antes de entrar no assunto em questão vou retomar minha trajetória passada, mas mais recente frente às hepatites virais no estado de São Paulo. Não existia absolutamente nada organizado de maneira sistêmica como um programa, quando me foi confiada a empreitada de organizar um Programa de Hepatites no meu estado de origem. Já havia, à época, e muitos anos antes também, esforços cotidianos dos profissionais de saúde, geralmente em serviços de nível terciário, no enfretamento destas patologias.

Por ter trabalhado até então como médica infectologista no atendimento à pacientes e como epidemiologista em inúmeras pesquisas, foi realmente uma nova empreitada me debruçar sobre questões de políticas públicas dentro de um sistema complexo como é nosso Sistema Único de Saúde. Foi lá que comecei a desvendar as questões ligadas a financiamentos, co-financiamntos, teto orçamentário, APHAC, FAEC e outras questões de gerência. Como trabalhei então, nas áreas clínicas, de pesquisa e de gerência em políticas públicas posso afirmar que é muito mais prazeroso atender pacientes, estudar tudo o que sai em revistas clínicas ou de epidemiologia, ou fazer um ensaio clínico de eficácia vacinal contra hepatite B, como tive oportunidade em relação às vacinas coreana EUVAX ou a do Instituto Butantã. Mas, para dar conta da implantação do Programa de Hepatites tive que me dedicar a novos temas.

Minha primeira incursão, e com sucesso, foi ajudar a viabilizar o procedimento de biologia molecular para hepatite C em FAEC estratégico, ou seja, extra teto orçamentário dos estados, além do reajuste da tabela SIA/SUS, para que esta ação tivesse sustentabilidade em seu processo. Tive, junto com o setor de hepatites do Institui Adolfo Lutz, e outros laboratórios universitários e da própria SES/SP, grande prazer em montar a rede de biologia molecular do estado. Mas de que adiantaria montar uma rede primorosa do ponto de vista técnico, se ela não se sustentasse financeiramente. Aí, o jeito era partir para o árido campo administrativo para que o ciclo se fechasse. Alcançamos nosso intuito, quando foi publicada a portaria 968 de 12/2002, que reclassificou o procedimento como FAEC estratégico, como pode ser visto abaixo, com o crédito para a SES/SP:
Portaria nº 968 de 11 de Dezembro de 2002

O Secretário de Assistência à Saúde, no uso de suas atribuições legais, e
Considerando as disposições da Portaria GM/MS N° 627, de 26 de abril de 2001, que estabelece a subdivisão do Fundo de Ações Estratégias e Compensação - FAEC em Ações de Alta Complexidade e Ações Estratégicas e aprova os procedimentos de alta complexidade e estratégicos do SIA e SIH/SUS;
Considerando a autorização concedida à Secretaria de Assistência à Saúde, por meio do Artigo 2°, da Portaria GM/MS/Nº 2.103, de 13 de novembro de 2001, e
Considerando os pertinentes estudos e avaliações realizados pela Secretaria de Assistência à Saúde em conjunto com a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, com o objetivo de atualizar a relação de procedimentos de ações de alta complexidade e estratégicas, resolve:

Art. 1° - Atualizar, na forma dos anexos I, II, III e IV desta Portaria, os Procedimentos de Alta Complexidade e Estratégicos do Sistema de Informações Ambulatoriais e Sistema de Informações Hospitalares - SIA e SIH/SUS.
Art. 2° - Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação, revogando a Portaria SAS/MS nº 526, de 16 de novembro de 2001.

Tivemos o maciço apoio e trabalho das ONG do mesmo estado, e penso que até de outros, em reivindicar esta questão, através de alguns milhares de assinaturas ao Ministro de Saúde da época.

Foi a primeira experiência exitosa de parceria conjunta entre um programa e uma ONG, em prol dos portadores.
Tive, enquanto coordenadora do Programa Estadual de Hepatites Virais SP, inúmeros parceiros nas várias instâncias da SES SP, mas as que dizem respeito às questões que coloco aqui são a Coordenação de Planejamento da SES/SP à época, para o exemplo que acabo de dar, e da CMB (Central de Medicamentos) para as questões que dizem respeito ao que vocês solicitam esclarecimento.

Isto posto, vamos aos esclarecimentos:

- Procedimentos de alto custo em co-finaciamento, entre estados e união, ou em financiamento federal, são pagas mediante preenchimento de APHAC, que no caso da hepatite C são os medicamentos e os exames de biologia molecular. Procedimentos não categorizados como de alto custo, como exames sorológicos, biópsia hepática e exame anátomo patológico, são ressarcidos pela união, mediante faturamento pelo preço discriminado na tabela SIA/SUS.

- Os recursos dos medicamentos de alto custo são repassados aos estados através de um mecanismo chamado fundo a fundo e são para o conjunto das patologias que requerem medicamentos categorizados sob esta rubrica, como por exemplo, hepatites e doença de Gauche. Uma APHAC preenchida para o Interferon peguilado deveria corresponder a 4 ampolas do imunobiológico e os estados estavam preenchendo por ampola, o que propiciou um repasse de recursos maior. Ocorre que o dinheiro para medicamento de alto custo é para o conjunto das patologias, sem especificação para qual. Apesar do grande volume de dinheiro repassado aos estados, em 2005 da ordem de 960 milhões de reais (excluídos os antiretrovirais para o HIV), ele é sempre deficitário em cima da crescente necessidade dos usuários, levando a crer que outras doenças foram beneficiadas com este repasse no ano de 2004. Digo que foi no passado, porque foram técnicos do Departamento de Assistência Farmacêutica (DAF) da Secretaria de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos ( C & T) do Ministério da Saúde, que identificaram falta de crítica no sistema de gerenciamento destes medicamentos e a colocaram, no final do ano passado. Entre estes técnicos encontram-se parceiros das instancias da SES SP que mencionei no início desta mensagem. A SVS não gerencia estes sistemas e os recursos destes procedimentos. Quando enviei o PAT de 2005 às ONG especifiquei os recursos do PNHV, da CGLAB e do PNI, que são do âmbito da SVS e chamei a atenção que outros recursos, de outras Secretarias do MS e em várias modalidades de financiamento não estavam computados no montante destinados às hepatites virais. Fomos informados pela C & T, e quando falo fomos, incluo todos os Secretários do MS e o próprio Ministro.

- No dia 20 de junho de 2005 o Sr. Carlos Varaldo e Sra. Luciana Pereira obtiveram audiência com o Ministro, na qual estávamos presentes Dr. Jarbas Barbosa, Doutor Expedito Luna e eu. Na pauta trazida por eles figurava este tema, que nós próprios já comentávamos em várias instâncias, inclusive por considerarmos que a portaria com a inclusão do retratamento seria factível orçamentariamente com estes recursos que não estavam sendo utilizado com o Interferon peguilado, o que depois não se confirmou, pois a demanda reprimida dos outros medicamentos, segundo representante do CONASS, já havia se incumbido de utilizá-lo. O Ministro, neste momento, respondeu que quem identificou este problema foi o próprio MS, que o sistema já havia sido corrigido e que os estados, com o repasse fundo a fundo, utilizaram este recurso com rubrica de medicamento de alto custo para as patologias que requerem estes medicamentos. Os dois representantes de suas ONG, podem confirmar este encontro e esta fala do Ministro.

- Quanto à frase “mesmo assim, não temos serviços suficientes do SUS para essa demanda”, informo que dei uma longa entrevista à repórter da Folha de São Paulo, durante dois períodos distintos. A princípio, o interesse maior era sobre o inquérito de soro prevalência das hepatites A, B e C nas capitais brasileiras, onde passei dados preliminares das regiões aonde a pesquisa foi concluída, quais sejam, Nordeste e Centro Oeste, e que vem confirmando estatísticas estarrecedoras da OMS para hepatite C no Brasil. Em outro dia da semana seguinte, falo sobre o desafio em incorporar no SUS a abordagem para esta demanda crescente da hepatite C e do trabalho que o PNHV vem realizando nas capacitações dos serviços da atenção básica e de serviços de média complexidade, visando descentralizar o atendimento e aumentar a capilaridade do sistema; ainda, que a crescente estruturação dos serviços visa a inclusão crescente dos portadores que vem sendo identificados. Acho que a edição da matéria não tocou na abrangência do que foi dito, mas não chega a comprometer o todo. O importante é que dê visibilidade ao problema, e acho que foi dado.
Agora o fantástico.

- O depoimento do Dr. Dirceu Barbano, atual diretor do DAF da C & T, que falou pelo MS, foi retirado na edição final da matéria. Isto não costuma acontecer neste veículo, o que nos causou estranheza.

Bem, passei todas as informações que disponho e sob as quais tenho domínio. Faço e continuarei fazendo junto à minha equipe e com o total apoio dos Drs. Expedito Luna e Jarbas Barbosa, um hercúleo trabalho técnico. Venho fazendo, como já fazia em SP, um desbravamento do mundo da administração, tentando achar caminhos dentro da secular e pesada burocracia do estado brasileiro em busca de respostas para aperfeiçoar o sistema de saúde. Fazemos, cotidianamente, um trabalho político de construção de parcerias entre as várias partes do MS, imprensa, movimentos sociais e universidades. Temos sucesso em tudo? Só se fôssemos megalomaníacos, cegos ou autistas responderíamos que sim. Como somos críticos e humanos, sabemos que muito há por fazer.

Temos tido grandes satisfações na nossa empreitada de construção conjunta, também frustrações pelo que ainda não conseguimos equacionar, e também chateações com as colocações de uma ou duas ONG. No jogo democrático não nos furtamos ao debate, à correção de rumos, caso necessário e ao diálogo, o que acreditamos estar construindo com a imensa maioria das representações sociais. Casos de calúnias nominais e infundadas, que vem ocorrendo de maneira isolada, o que absolutamente não tem sido a prática da esmagadora da maioria das ONG, serão tratadas pela área jurídica competente.
Continuo à disposição para qualquer esclarecimento que seja de minha competência e também para buscar respostas junto a outras áreas do MS.

Gerusa Figueiredo
Programa Nacional de Hepatites Virais
Ministério da Saúde
Esplanada dos Ministérios, bloco G
sobreloja sala 159 cep: 70058-900
fone: (61) 315-2340