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Correio
Braziliense 29 de março de 2001
VIGILÂNCIA SANITÁRIA
O problema é nacional
A
falta de cuidado de alguns dentistas não pode ser considerada
uma deficiência exclusiva do Distrito Federal. Segundo Cláudio
Mayerovitch, dentista responsável pela regulamentação
do setor na Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa), as pessoas que moram no interior brasileiro estão
ainda mais vulneráveis. Isso porque é maior o número
de profissionais que não usam luvas, nem esterilizam os
materiais. Embora ciente disso, o governo federal alega que não
pode interferir diretamente na questão. Pela lei, os governos
estaduais e municipais são responsáveis por fixar
as normas sanitárias e fiscalizar o cumprimento delas.
Até hoje, as regras gerais são tiradas de uma lei
federal de 1994 que, segundo a própria Anvisa, está
desatualizada. Um novo projeto de lei está pronto e aguarda
votação no Congresso. Nesse projeto, as dimensões
adequadas das clínicas e consultórios odontológicas,
assim como instruções sobre materiais de revestimento
para parede e chão, são especificadas. ''Com a nova
lei, vamos ter mais facilidade para agir em conjunto com os estados
e municípios'', explica Mayerovitch. Essa ação
conjunta também deve ajudar o trabalho de equipes como
a da dentista paulista Catalina Riera Costa, que coordena um grupo
de pesquisadores em saúde bucal no programa de combate
à Aids da cidade de São Paulo. Segundo ela, os dentistas
infectados pelo HIV podem continuar trabalhando, desde que tomem
precauções. ''Por isso é tão importante
que as pessoas exijam dos dentistas o uniforme completo e o consultório
limpo'', diz Catalina. ''É direito do cidadão, por
exemplo, pedir para checar como é feito o processo de esterilização.''
A coordenadora lembra que as pessoas contaminadas pelo vírus
HIV também têm direito de ser atendidas. Daí
a necessidade do dentista adotar todas as medidas de prevenção
para proteger a si próprio e a outros pacientes que freqüentem
a clínica.
O
risco de ir ao dentista
Segundo
pesquisa de um professor da Universidade de Brasília, quase
metade das clínicas e consultórios odontológicos
do DF não segue regras de higiene e desinfecção.
As falhas vão desde salas com carpete e plantas à
falta de esterilização dos instrumentos.
Da
Redação
Uma
consulta odontológica não costuma trazer boas lembranças
para a maioria das pessoas. Principalmente para aquelas que tremem
só em pensar no barulho do motor. Mas o receio de quem
freqüenta a cadeira do dentista deveria ir muito mais além.
Em especial no que se refere às condições
de higiene nos consultórios. É o que indica uma
pesquisa coordenada pelo professor de microbiologia oral da Universidade
de Brasília (UnB), Laudimar Alves. No estudo, ele constatou
que quase a metade das clínicas e consultórios odontológicos
do Distrito Federal não está seguindo normas básicas
da Vigilância Sanitária. O controle químico
dos materiais é um dos procedimentos mais desrespeitados
pelos dentistas. Esse controle envolve desinfecção
de materiais e móveis com álcool e outras substâncias
de limpeza após cada atendimento, além de esterilização
dos instrumentos em máquinas a temperaturas determinadas
pelo Manual de Inspeção da Vigilância Sanitária
do DF. Os padrões, criados para proteger o paciente de
doenças infecciosas como hepatite e Aids, não estão
sendo seguidos em 44,8% das 154 clínicas e consultórios
odontológicos entrevistados no primeiro semestre do ano
passado, durante a fase inicial do estudo. Outro dado alarmante
dessa pesquisa é que 10,4% dos estabelecimentos nem ao
menos fazem o controle químico.
Regiões analisadas
As clínicas e consultórios que serviram como amostra
para o estudo ficam em seis diferentes regiões do DF: Asa
Sul, Asa Norte, Taguatinga, Sobradinho, Guará e Gama. Elas
foram escolhidas seguindo critérios que relacionam o número
de habitantes com o total de clínicas e consultórios
na cidade - ao todo são 2.293. O grupo de 20 de pesquisadores
que fez as visitas, na maior parte composto por alunos de odontologia
da UnB, observou ainda que 19% dos estabelecimentos possuem o
chão revestido com carpete. "Por ser de difícil
limpeza, o carpete acumula muita poeira, principal habitat de
microorganismos responsáveis por infecções'',
explica o pesquisador Laudimar Alves, que apresentou o estudo
na semana passada, no IX Congresso Internacional de Odontologia.
Segundo Alves, que manteve todos os nomes das clínicas
em sigilo, a intenção é mostrar aos conselhos
de odontologia e órgãos de vigilância sanitária
a necessidade de intensificar a fiscalização. Entre
irregularidades que ele e sua equipe encontraram estão
problemas que parecem óbvios ao olhos de qualquer pessoa,
como a presença de plantas nas salas de atendimento. Elas
são viveiros de microorganismos nocivos a pacientes com
ferimentos na boca.
Desleixo
O diretor da Vigilância Sanitária do DF, Laércio
Ignácio Cardoso, alega que os dentistas da cidade são
visitados pelo menos um vez a cada ano por um dos 15 fiscais responsáveis
pela área. Mas ele reconhece que muitos profissionais apenas
regulam a temperatura das estufas quando recebem a visita dos
inspetores. A regulagem de temperatura é uma das principais
medidas usadas para garantir uma esterilização completa.
'' É difícil fiscalizar os dentistas já que
os principais procedimentos de segurança em um consultório
são feitos no dia-a-dia. Não temos pessoal para
acompanhar esse trabalho tão de perto'', explica Laércio.
Mesmo com um número limitado de fiscais, a Vigilância
Sanitária adverte todos os anos pelos menos 20% das clínicas
e consultórios do DF, mas nenhuma delas chegou a ser interditada.
A documentação irregular responde pelo maior número
de advertências. Mas alguns dentistas já foram notificados
por não terem em suas clínicas duas pias, uma para
lavagem de mão e outra para materiais. Outros, por não
oferecerem coletes protetores para exames de raio-X ou até
por montarem a cozinha no mesmo local onde é feita a esterilização
dos materiais. O desleixo desses profissionais vai além.
No final do ano passado, Durante a greve dos funcionários
do Serviço de Limpeza Urbana (SLU), a Promotoria de Defesa
da Saúde foi informada que apenas seis clínicas
odontológicas estavam registradas no sistema de coleta
de lixo hospitalar. ''Mandamos uma notificação para
os conselhos e esperamos que eles pressionem os dentistas a fazer
o cadastro. Caso contrário, vamos pedir para a vigilância
sanitária resolver o problema'', garante o promotor Diaulas
Ribeiro, responsável pela Promotoria de Defesa dos Usuários
dos Serviços de Saúde (Pró-Vida) do Ministério
Público do DF. Além de comprometer a saúde
pública, deixando que materiais contaminados se misturem
ao lixo caseiro nas ruas da cidade, alguns dentistas estão
esquecendo de cuidar de si próprios. A pesquisa da UnB
constatou que, durante o atendimento, 18% dos dentistas não
utilizam óculos protetores, 22% não usam gorro ou
avental e 18% não lavam a mão entre um paciente
e outro. Segundo a presidente do Associação Brasileira
de Odontologia (seção DF), Vânia Del Moro,
esse procedimentos errados aconteciam com mais freqüência
há cinco anos, quando os dentistas ainda se achavam imunes
a doenças como a Aids. Mas, ainda hoje, esses profissionais
não relatam casos de infecção na clínica
com medo de perder prestígio. A Vigilância Sanitária,
por sua vez, também não tem como estimar a quantidade
de pessoas que foram contaminadas pelo vírus HIV ou por
outras doenças em consultórios odontológicos.
A forma de contágio não costuma ser pesquisada e
registrada pelos médicos da rede hospitalar. Os dentistas
acabam ficando acima de qualquer suspeita.