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CIRROSE
Cirroses
PERGUNTAS:
01) Qual o motivo do genótipo 1 ser mais agressivo que
os outros?
Dra. Gerusa Figueiredo: Sobre o prisma da historia natural do
HCV não existem dados que validem esta afirmação.
O que existe são diferenças quanto à probabili-dade
de resposta terapêutica aos fármacos atualmente disponíveis.
O Genótipo 1 apresenta menores taxas de resposta se comparado
aos genótipos 2 e 3.
Dr.
Raymundo Paraná: Ele não é mais agressivo
na historia natural da doença. O genotipo 1 é mais
resistente ao tratamento com as drogas atuais.
Dr.
Stéfano Jorge: agressividade de um vírus depende
não só dele, mas também da relação
entre ele o hospedeiro. No caso da hepatite C, aonde a lesão
ao hepatócito ocorre principalmente pela ação
do sistema imunológico, genótipos que desencadeiem
maior resposta imunológica serão mais agressivos.
Velocidade de replicação e características
da cápsula viral, que são diferentes de acordo com
o genótipo, influenciam diretamente a agressividade.
E
de onde procedia a essa afirmação?
Dra. Gerusa Figueiredo: Não há como afirmar. Talvez
em alguma falha de comuni-cação – déficit
de adaptação do conteúdo técnico,
utilizado pelos especialistas, pa-ra a compreensão do público
em geral.
02)
Quantos estágios têm a cirrose?
Dra. Gerusa: Para classificar a cirrose existe a classificação
de Child – nome dado em referencia ao pesquisador que a
desenvolveu. A classificação de Child baseia-se
em parâmetros da função hepática (Tempo
de pro trombina, albumina, bilirrubi-na, ascite e encefalopatia
hepática). Esta classificação visa fornecer
dados aproxi-mados sobre a reserva funcional do fígado
e é dividida em três estágios – Child
A, B e C; sendo Chid A = cirrose compensada e Chid C = cirrose
descompensada.
Dr.
Paraná: A cirrose é classificada conforme o comprometimento
da função do fi-gado em A, B e C. O C é o
estágio mais avançado.
Dr.
Stéfano: Depende da classificação que você
utilizar. A mais utilizada é a Child-Plough, que vai de
A a C.
03)
Por que algumas pessoas vivem durante anos com o vírus
e jamais desenvol-veram cirrose?
Dra. Gerusa: O processo de agressão hepática não
é linear e uniforme. Existem fa-tores genéticos
(próprios de cada individuo) e ambientais (ex: consumo
de bebida alcoólica, uso de imunossupressoras) que atuam
neste processo. Deste modo, al-guns indivíduos têm
um padrão rápido de deposição de fibrose,
enquanto outros a formam lentamente.
Dr.
Paraná: Não se sabe ao certo, mas a fibrose hepática
é um fenomeno depen-dente da genética do indivíduo
Dr.
Stéfano: Como escrevi acima, isso depende da interação
entre o organismo e o
hospedeiro. Mesmo o mesmo vírus causa reações
diferentes em pessoas diferentes. Mas a grande maioria dos infectados
pelo HCV não desenvolverão cirrose
04)
Qual a probabilidade real e comprovada que o transplante pode
dar uma so-brevida saudável ao transplantado?
Dra. Gerusa: O transplante hepático é a terapêutica
de escolha para os pacientes com estágios avançados
de cirrose. Para pacientes com HCV a sobrevida com qualidade de
vida é > 80% em 5 anos.
Dr.
Paraná: Mais de 70% em 10 anos
Dr.
Stéfano: O que você entende por "sobrevida saudável”?
05)
Quando se faz o transplante quanto tempo se pode prever para que
o novo fí-gado comece a dar sinal que já está
com um certo grau de inflamação?
Dra. Gerusa: A re-infecção no fígado transplantado
é praticamente universal no HCV. Contudo, existem diferenças
nas taxas de progressão da fibrose nestes paci-entes. Alguns
deles desenvolvem uma evolução rápida, enquanto
outros (a maiori-a) desenvolvem um processo lento de fibrose e,
deste modo, não apresentam complicações da
infecção pelo HCV.
Dr.
Paraná: Na hepatite C o retorno da infecção
no novo orgão é esperado, contudo pode levar décadas
para complicações. Certamente que pode ser mais
rápido em alguns casos.
Dr.
Stéfano: É imprevisível, mas a inflamação
pode ocorrer logo em seguida ao transplante, por vários
motivos, desde a atividade do vírus até outras infecções
ou toxicidade dos medicamentos, sem falar na rejeição.
06)
Fazendo o tratamento, é provado que o vírus fica
mais lento dando realmente “descanso” para o fígado,
adiando assim que um grau de fibrose demore mais para ir adiante?
Dra. Gerusa: Existem vários tios de resposta terapêutica
para o HCV. O mais co-nhecido e desejado é a resposta virológica
sustentada, que negativa o vírus. Con-tudo existe a resposta
histológica. Neste tipo de resposta o paciente não
negativa o vírus, mas pode obter melhora da agressão
hepática que o vírus vinha causando. Isto pode acontecer
naqueles que completam o tratamento, mas que ao final dele não
negativa o vírus. Este tipo de resposta pode lentificar
o processo de progres-são da doença e com isso trazer
benefícios ao paciente.
Dr.
Paraná: Na maioria dos casos.
Dr.
Stéfano: . Isso não ocorre em todos, mas na maioria
07)
Em um cirrótico, quais são os benefícios
do tratamento para o fígado?
Dra. Gerusa: A cirrose é um estágio avançado
de fibrose hepática; sendo assim a reserva funcional do
fígado é pequena nesta situação. Os
pacientes cirróticos que apresentam um quadro compensado
podem, com uma avaliação cautelosa e a-companhamento
criterioso, receber o tratamento. Deste modo, quando possível,
o tratamento do paciente cirrótico pode eventualmente retardar
ou mesmo reverter o processo de agressão do fígado,
evitando a progressão para a cirrose descompen-sada. Contudo,
o tratamento dos pacientes cirróticos é bastante
complexo e as ta-xas de respostas, neste grupo de pacientes, são
normalmente inferiores àquelas encontradas em não-cirróticos.
Dr.
Paraná: Se curar pode haver regressão da cirrose.
Dr.
Stéfano: Também pode haver diminuição
na velocidade de rogressão da doença.
08)
Interferon com ribavirina pode vir a prejudicar um cirrótico?
Dra. Gerusa: Sim. Como dito na questão anterior, o tratamento
do paciente com cir-rose é complexo. Tais pacientes além
de menor chance de resposta, apresentam maiores índices
de reações adversas. Por este motivo, o tratamento
nesta condição deve obedecer a uma revisão
das indicações e contra-indicações
bastante criterio-sa.
Dr.
Paraná: Pode descompensar a doença. Só deve
ser usado por profissionais experientes.Dr.
Stéfano: Pode prejudicar sim. Por esse motivo, portadores
de cirrose descompensada não podem fazer o tratamento.
Já nos com cirrose
compensada e atividade inflamatória, os estudos mostram
que os
benefícios são maiores que os riscos.
09) Por que muitos médicos não incluem na fila de
transplante um indivíduo cirróti-co compensado considerado
não respondedor?
Dra. Gerusa: Os critérios para incluir um paciente na lista
de transplante não são definidos por cada médico
individualmente. Tais critérios são normatizados
em ca-da país pelos órgãos reguladores da
saúde. No Brasil, o Ministério da Saúde,
que é o órgão regulador, tem normas que definem
os critérios de entrada e progressão na lista.
Dr.
Paraná: Existem critérios mínimos definidos
pelo ministério da Saúde para listar um paciente.
Dr.
Stéfano: Porque essa não é uma indicação
de transplante.
10) Por que nem todos os médicos não fazem nenhum
tipo de procedimento quando é detectada variz no esôfago?
Não seria um risco aguardar por uma he-morragia?
Dra. Gerusa: As varizes de esôfago são classificadas
em pequeno, médio e grosso calibre. Até o momento,
os estudos mostram que só há benefícios com
algum tipo de intervenção médica quando as
varizes são de médio e/ ou grosso calibre e com
sinais premonitórios de sangramento. Caso contrário,
além de não existir benefício, as intervenções
podem expor os pacientes aos riscos de suas complicações.
Dr.
Paraná: Só as varizes de medio e grosso calibre
estão em risco de sangramen-to, por isso só elas
merecem abordagem terapêutica.
Dr.
Stéfano: Há um ponto no crescimento das varizes
em que o risco de hemorra-gia maior. Antes desse momento, os riscos
do procedimento são maiores que o ris-co de varizes pequenas
se romperem.
11)
O histórico de vida do indivíduo pode ajudar ou
prejudicar na hepatite C?
Dra. Gerusa: Como dito anteriormente, alguns fatores podem acelerar
o processo de fibrose (ex: consumo alcoólico, obesidade,
síndrome metabólica).
Dr.
Paraná: SIM. Obesidade, e consumo de alcool fazem a doença
progredir mais rápido.
12)
Um indivíduo considerado respondedor mantém esse
resultado indefinitiva-mente?
Dra. Gerusa: Os estudos demonstram que tais pacientes permanecem
negativos pelos testes padrões em mais de 98% dos casos
em 5 a 10 anos.
Dr.
Paraná: 98% das vezes.
Dr.
Stéfano: Não. Em tratamentos posteriores, pode não
haver resposta.
13) Por que muitos respondedores voltam a ser positivo? O método
de avaliação pode ter sido falho.
Dra. Gerusa: Uma possibilidade é a re-infecção.
O individuo que negativou deve manter as medidas de prevenção,
pois caso se exponha novamente ao vírus, ele poderá
ser adquirir a infecção novamente.
Outra possibilidade é a utilização de um
teste de detecção com limite de sensibili-dade não
adequado. Em outras palavras, o teste não detectou níveis
baixos de vi-remia.
Dr.
Paraná: Um teste HCV-RNA pouco sensivel
Dr.
Stéfano: Porque não eliminaram o vírus.
14)
Por que muitos médicos dizem que a alimentação
nada influi em relação ao fígado?
Dra. Gerusa: Não existem dietas ou formulações
dietéticas de qualquer espécie pa-ra portadores
de vírus C. Tais dietas e fórmulas, ditas hepatoprotetoras
ou com po-der de negativar o HCV, carecem de qualquer (ainda que
mínima) comprovação ci-entifica. Pior, não
se sabe se além de não ajudar, elas podem prejudicar
os porta-dores do HCV que fazer uso delas.
O controle metabólico com redução da obesidade,
diminuição dos níveis de coles-terol/ triglicérides,
o controle dos diabetes e a abstinência alcoólica
são desejáveis em pacientes com HCV. Contudo, tais
objetivos são alcançados por medidas nutri-cionais,
comportamentais e farmacológicas bem estabelecidas na prática
Médica e da Nutrição.
Dr.
Paraná: Porque não existenm dados científicos
que comprovem . Hoje devemos desconfiar do charlatanismo nesta
area. Muitos fazem dietas mirabolantes , usam medicamentos formulados
ou naturais. ENGANAÇÂO PERVERSA E CRIMINOSA.
Dr.
Stéfano: Porquê não há uma dieta específica
para a hepatite. Uma dieta
balanceada sem álcool geralmente é suficiente, exceto
nos portadores
de cirrose, aonde podem haver restrições adicionais.
15)Por
que muitos médicos não orientam seus pacientes a
procurar ajuda psicoló-gica?
Dra. Gerusa: Esta prática deve ser incentivada entre os
médicos. Contudo, o pro-fissional deve estar habilitado
e familiarizado com as questões relativas ao portador do
HCV.
Dr.
Paraná: Depende do médico. Nosso grupo indica com
frequência,mas escolhe profissionais habilitados para tal.
Dr.
Stéfano: Se for detectada a necessidade de psicoterapia,
deveriam. Mas é
difícil conseguir pelo SUS e os convênios não
cobrem. Dos que eu
encaminho, poucos realmente vão.
16)
Quais os efeitos colaterais mais comuns a todos que passam pelo
tratamento?
Dra. Gerusa: Sintomas gripais (febre, coriza, mialgia, cefaléia),
alterações do humor (depressão, irritabilidade,
insônia, fadiga), alterações hematológicas
(anemia, pla-quetopenia), alterações endócrinas
(tireoidite).
Dr.
Paraná: Reduçaõ de plaquetas e leucocitos,
Fadiga, insonia depressão.
Dr.
Stéfano: Febre, dores musculares, mal estar, indisposição,
depressão, etc.
17)
Qual o motivo pelo qual o baço tem um aumento acentuado
em todos os por-tadores do vírus da hepatite. C?
Dra. Gerusa: O baço não está aumentado em
todos os portadores do vírus. Este aumento acontece nos
cirróticos, devido à hipertensão portal -
dificuldade de circu-lação do sangue através
do fígado (mesmo mecanismo que gera as varizes de esô-fago).
Dr.
Paraná: A cirrose. Só acontece nos cirróticos.
Dr.
Stéfano: Não está aumentado em todos os portadores
de hepatite C. Nem na maioria.
18)
Por que muitas pessoas têm suas transaminases com valores
altíssimos e mesmo assim após a biopsia é
constatado que o grau de fibrose é 1 ou 2?
Dra. Gerusa: As alterações provenientes da agressão
hepática pelo HCV compre-endem as alterações
inflamatórias e a deposição de fibrose. As
transaminases são indicadores indiretos dos aspectos inflamatórios,
não existindo, portanto, uma rela-ção linear
entre níveis de transaminases e grau de fibrose.
Dr.
Paraná: Transaminase e carga viral nada tem a ver com o
grau de agressão ao fígado.
Dr.
Stéfano: As transaminases refletem a destruição
dos hepatócitos, não a forma-ção de
fibrose. Algumas pessoas respondem à destruição
dos hepatócitos com mais fibrose que as outras, evoluindo
com cirrose mais rapidamente.
Essa diferença em relação à formação
de fibrose é um dos principais
objetos de estudo em hepatologia nos últimos anos, se conseguirmos
controlar a formação de fibrose poderemos mudar
completamente a
história natural das doenças do fígado.
19)
Por que muitos não têm um valor elevado das transaminases
e após biopsia mostram que já desenvolveram cirrose?
Dra. Gerusa: Como dito na questão anterior as transaminases
não representam bem o grau de deposição de
fibrose no fígado e sim os aspectos inflamatórios
pre-sentes no mesmo.
Dr.
Paraná: Pelo mesmo motivo.
Dr.
Stéfano: Pelos mesmos motivos descritos na pergunta anterior.
20) O exame alfa feto proteína, é eficaz em diagnosticar
que o indivíduo pode ter câncer?
Dra. Gerusa: A alfa-fetoproteina (alfa-FP) é um teste de
rastreamento e deve ser associada ao Ultrasonografia (USG) em
pacientes cirróticos com HCV ou para por-tadores de HBV
(cirróticos ou não). Caso existam alterações
na alfa-FP e/ ou USG, o paciente deverá ser submetido a
um exame diagnóstico por Tomografia ou Res-sonância
Magnética.
Dr.
Paraná: Juntamente com a US tem sensibilidade estimada
em 60%. Não temos nada melhor com screening barato e de
fácil execução.
Dr.
Stéfano: É um dos exames mais eficazes para detectar
o surgimento de um
hepatocarcinoma, mas deve ser associado a um método de
imagem. Mas não
serve para prever a possibilidade de câncer.
21)
Por que a grande maioria dos médicos pede apenas o PCR
quantitativo?
Dra. Gerusa: No caso de pacientes com HCV genótipo 1 existe
indicação do teste quantitativo início do
tratamento e na semana 12; ainda há déficit de conhecimento
sobre o manejo do HCV entre os profissionais de saúde.
Dr.
Paraná: Ainda fruto do desconhecimento. É preciso
investir em educação médi-ca na área
principalmente para infectologistas. Hepatologistas solicitam
muito pou-co a quantificação viral.
Dr.
Stéfano: Porquê na maioria das vezes só é
necessário saber se há vírus
circulante, não a quantidade. E é um exame mais
caro, não coberto pela
maioria dos convênios e nem sempre disponível pelo
SUS.
22)
A carga viral pode determinar se o indivíduo tem uma inflamação
em larga es-cala no fígado?
Dra. Gerusa: Não existe uma relação linear
entre estes parâmetros.
Dr.
Paraná: Não.
Dr.
Stéfano: A carga viral não reflete com segurança
o dano ao fígado. O dano, como já dito, é
causado pela interação entre o vírus e o
hospedeiro, e nem
sempre a quantidade do vírus é significativa.
23)
Por que muitos têm carga viral altíssima e os danos
no fígado são insignifican-tes e muitos têm
uma carga viral baixa e já mostram sinais de danos significativos?
Dra. Gerusa: Como dito anteriormente, a agressão hepática
pelo HCV é dada por uma interação complexa
entre fatores diversos (genéticos e ambientais). Deste
modo, relações lineares entre diversos parâmetros
envolvidos nem sempre estão presentes.
Dr.
Paraná: Depende da interação do virus com
o Hospedeiros. Trata-se de uam complexa relação
que não pode ser simplificada em poucas palavras.